domingo, 29 de setembro de 2013

O Bêbado Equilibrista


Era o bêbado que vinha na madrugada, o bêbado equilibrista. Por praças, casas, bancos e bordeis, com o litro, a cachaça quente. O bêbado se fazia noite, em silêncio andava por entre as prostitutas que embelezam os casebres, “o que seria da noite sem as prostitutas”, vestimenta, maquiagem, interesse, entrega a profissão que embeleza a noite, prazer na noite. De gole em gole, de noite a dentro o bêbado equilibrista se faz noite. Do cemitério ao meio da pista, o equilibrista bêbado contempla do alto as luzes da cidade “ não opaca as luzes das estrelas, ao contrário, reinventam o céu, caem sobre a terra. A terra agora parece céu, cheio de estrelas e belezas”.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Do dia que há muito não percebia

                                                                 Só o silêncio faz rumor no voo das borboletas
                                                                                     (Manoel de Barros)



Era dia quando o trio dos pássaros me tomou de agudo e como alma saída do corpo levantei-me,
galos, cachorros, vento, fazia tempo que não os ouvia.

Os pés já não pareciam mais com os das pedras que de tão espessos prendem o seu movimento. 
Bebi um gole d'água em um copo que parecia um buraco empalhado.
O cabide de madeira com delicadeza me estendia um dos seus nove braços, com educação segurava meus chapéus.
Nas paredes da cozinha vi flores marrons, estrelas sem pontas, sol, girassol, batedeira. 
A minha cozinha produz cheiro e gosto.
Gosto mais do cheiro do café do que o gosto, é vida pela manhã.
O banho que me cobria com um vestido morno. 
Escolhi o chapéu listrado e fui trabalhar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Tinha mundo



“Eu tinha tudo tinha mundo era mudo sonhava
Era bicho no espreguiço que eu dava
E tinha gente que fluente la dos inglês
Que viu as pernas passadas do português
E lhe foi indagar
Por que essa mansidão não tens o que trabalhar?
Continuei mudo sentado dono do mundo a contemplar”

Quando tentei voltar a ser criança



Depois dos 65 anos Resolvi voltar a ser criança. Percebi que não era difícil. Comecei pelas contas, troquei as do banco pelas das balas da mercearia. Resolvi que não sabia sorrir no emprego, talvez isso fosse a causa dele ser chato, vários papéis com palavras chatas, enfadonhas. Montei uma pastelaria, sonho antigo, adoro pastel, ia as feiras e sempre comia dois, carne e queijo, caldinho de cana, docinho, como mel. Passei a não usar terno, aquilo cobria me até os braços, me faz lembrar roupa de hospício. Usava minha camiseta mal passada, uma antiga com furos, tão solta, confortável.  Quando percebi que criança não tem medo de lama, gosta de bicho e anda sempre de pés descalços, e eu adorava fazer isso, mas agora tinha pavor de chão: “Chão imundo”. Comecei a andar de pés descalços e muitas vezes sujo de brincar com meu quintal. Lembrei que eu gostava de versinhos, cordel e samba, papai sempre cantou versos, toadas, samba de coco, aquilo era alegre, a família em volta, uns usando a mesa como instrumentos, outros um balde, carne assada, milho assado, uns dançando, mas todos sorrindo mas, hoje não posso contar com a família, mas posso cantar versinhos:                                                                     “ Moça dos olhos de mel
                                                                                    Com seu caminhado danado
                                                                                    Com seu Sorriso de fel
                                                                                    Deixou-me apaixonado” 
Assim fui me adaptando, muitas coisas pra transfigurar a inocência, espero continuar tentando até meu ultimo dia voltar a ser criança.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

                                                                                        



                                                                Cora
                                                               oração
                                                no meu coração 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

                                            A espuma do mar 
                                            sorrindo me tragar
                                                       
                                         O garoto empina pipa
                                         a senhora vende pastel
                                                   
                                                onda mole         
                                           suspira e soltar o ar
                                          
                                                  

 

sábado, 7 de setembro de 2013

Sorrir

Hoje recebi abraços pelo olhar
risos me receberam em harmonia
olhares tristes, serenos, parceiros, disfarces, alarme
olhares presos
outro bobo
inocente
não pude prevê os golpes de risos que tive das piadas parceiras, camaradas
risos de ignorância
de cantos engraçados
não pude prevê, mas pude sorrir

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poesia Dispensável

                                                                    Penetra surdamente no reino das palavras.
                                                                    Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
                                                                    (Carlos Drummond de Andrade)



Foi nas palavras que ouvi o tempo descascar as paredes brotando desenhos pessoais sem me preocupar
é inútil não se preocupar
a poesia não quer dizer
aparecer
não se esconde nem aparenta tão pouco acalma
o poeta é dispensável por não se preocupar
por estar cheio de irregularidades
como onda que anda sobre o mar ou pássaro que canta a assobiar
desprovido de segurança o poeta não classifica
a poesia não qualifica
o poeta não se preocupa

terça-feira, 3 de setembro de 2013



A Armadilha

A criança brincava debaixo da cama, dizia está caçando armadilhas. 
Encontrou armadilhas de ursos, de gente grande
pra avião e ladrão. Sua tia achava que o menino estava louco
então ele preparou uma armadilha pra “mulherzinha”, danado,
conseguiu prende-la na hora que usou seu sapato, mas ela não prestava
atenção que havia caído numa armadilha e com pressa saiu do quarto.
O garoto continuava na floresta a preparar armadilhas, dessa vez iria
pegar uma nuvem.