segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Futebol de Domingo

Mais um domingo ensolarado e a perspectiva de praia sobrepujava diante da opção de lavar os pratos. Assim retirava-me com fervor a um coletivo composto de guerreiros alegres, sambão, surdo, cantorias orquestrada sem maestro, alias o maestro ali era metafísico, a orquestra era regida pela esperança de tocar o mais depressa as areias.
No instante em que desci em um dos terminais me identifiquei com um assunto que poderia ser matéria de minha crônica, quando me atrevi a buscar informações peculiares sobre qual ônibus seria viável em meu destino, fui recebido por um rosto de exaustão cuja informação saia-lhe à boca de mal grado. Até entendo, pois quem em um domingo tão glorioso quer ser profissional. Mas esses assuntos eu deixo para cientistas sociais, filósofos existenciais, políticos, materialistas e afins.
Eu precisava de poesia, queria ser descoberto por ela e sabia que a praia seria
o escritório mais que útil.
Uma das virtudes da praia é de fornecer um vasto território futebolístico. Ótimo, pois assim, deparo-me de repente com uma pedala das boas, daquelas de suar e ficar exausto, mas não como quem trabalha pra dar informações em um domingo, mas cansado de alegria mesmo.
Pudera eu ser dotado de alguns atributos e intimidades com a bola, mas isso passa muito longe. Deus preferiu que eu fosse pequeno, magro e de nome Humberto. To mais pra roceiro que pra um Ganso, mas não importa, faço coro no babá, completo time, luto, brigo, dou assistências e até faço gols. Seria demias também exigir de um não profissional, que fosse um ótimo jogador de desequilibrar partidas. Talvez de envolvesse dinheiro eu poria minhas chuteiras, meião, caneleira, camisa do flamengo, cortasse o cabelo, ajeitasse a barba, tirasse selfie, mas ai já é demais. Tudo pela diversão, sem contra versões, nada além de futebol- não como aqueles que dão informações num domingo tão divertido.
Talvez se eu nascesse na Suécia seria um banqueiro, se surgisse na China poderia ser um monstro da robótica, nos Estados Unidos da América poderia criar uma síndrome anti-árabe. Mas graças ao bom Deus pude ser brasileiro e deixar de lado todo profissionalismo do mundo no dia de domingo.
Se Deus fosse homem seria brasileiro, com certeza. Só brasileiro possui um jeitinho pra tudo, talves não fracassasse com sua criação se desde os primórdios adotasse a conduta do bom malandro, se o futebol fosse engessado na grade curricular das escolas, se no manual de boas condutas ao invés de sentar-se a mesa com postura verticalada sem por cotovelos à mesa, com cara de sério de quem faz da comida uma espécie de rezas e por fim aprova com um aceno de cabeça e um apertar de dedos o homem pudesse sentar-se na grama, apoiar os braços nas coxas e rir até se acabar depois abrassarem-se e dai começarem a traçar as linhas adversárias.
O futebol já era praticado pelos anjos. Tenho a impressão que foi em uma disputa de futebol que Satanás e Deus se desentenderam, pois Satã é malandro e quis passar a perna nos manés,
deve ter inventado a caneta. Ao todo poderoso não lhe agrada olés. Extinguiu o Dêmo do clube profissional, agora vive a vagar sem carreira, desprezado pelas maiorias. Deus também extinguiu o futebol, mas os ingleses tediosos e sedentos pelo poder encontraram uma bola perdida, algum invento maravilhoso depois da revolução industrial estava sendo arquitetado, era a bola. Mas os ingleses queriam o profissional, a técnica unilateral, firme, de cruzamentos, chutões e cabeceios. Porém o brasileiro de tudo faz gingado, o molejo próprio para tantos infortúnios e sofrimentos, olhou a bola de primeira e ali percebeu como carrega-la com carinho, como bater sem machucar, como coloca-la ao gol em quietude e primazia de um anjo.
Bem, como diria Rubem da Foncesa : "O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem".
Do tempo da invenção do futebol, passando pelo mestre Didi, o revolucionário, até o meu domingo, a bola é a mesma em todos os cantos, mas o prazer na malandragem é exclusivo do brasileiro.
Foi assim que a poesia pode me encontrar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Aquela Rua

Aquela rua de curva acotovelada donde havia sombras para as duas calçadas, neste meu tempo não refugiam mais pessoas.
Os homens se enfurnaram em suas casas e de lá apenas saem as missas e trabalhos.
As crianças que doutros tempos saboreavam a delicia de um sol para empinar pipas, agora refrigeram-se em seus compartimentos de solidões e abestam-se tão de repente por inoculadas notícias atentadoras.
Ó, tu eras uma rua gigantesca com de dimensões de paixões, sobrados de conversas,
Bons dias, boas tardes. " Lá vem Jacó de sua pescaria"; "Alcebiades da casa de sua amante" e Tereza a estender as fragrâncias das vestes no varal.
Agora aquela rua de maestria clássica já não cabem mais pessoas, apenas passam carros em horas distintas.
Os humanos dali presentes agora se desconfiam, não se conhecem, não se mutuam, não entreolham-se.
Olhar ao vizinho é sinônimo de afronta ao particular, tem de ser notório, direto e com lucros e bonécias para se envolverem em uma trama tão feroz que sai da boca com tanto arrepio e um simples e longínquo quase mudo bomdia apertado.
Os jovens agora técnicos e futuros mestres do saber ignoram a presença de ventos úmidos,
os jovens em presenças abissais com outros semelhantes se refugiam e se limitam a transmitir um único gemido, apesar de risos com a vida estática e inerte de fotos e vídeos.
Até as sombras que ocupavam as calçadas se desesperaram com tamanha frieza e se foram, só a calor e sol nas portas.
As sombras que amoleciam as pregas da cabeça se abstiveram de rezar mais um domingo e elas próprias se excomungaram.
Aquela que foi rua hoje não carrega mais nada de peladas das crianças nem de crianças nuas
agora é passagem para escritórios.

A vida se foi juntamente com as sombras o que resta a rua é calor e obviedade.