Pular para o conteúdo principal

Aquela Rua

Aquela rua de curva acotovelada donde havia sombras para as duas calçadas, neste meu tempo não refugiam mais pessoas.
Os homens se enfurnaram em suas casas e de lá apenas saem as missas e trabalhos.
As crianças que doutros tempos saboreavam a delicia de um sol para empinar pipas, agora refrigeram-se em seus compartimentos de solidões e abestam-se tão de repente por inoculadas notícias atentadoras.
Ó, tu eras uma rua gigantesca com de dimensões de paixões, sobrados de conversas,
Bons dias, boas tardes. " Lá vem Jacó de sua pescaria"; "Alcebiades da casa de sua amante" e Tereza a estender as fragrâncias das vestes no varal.
Agora aquela rua de maestria clássica já não cabem mais pessoas, apenas passam carros em horas distintas.
Os humanos dali presentes agora se desconfiam, não se conhecem, não se mutuam, não entreolham-se.
Olhar ao vizinho é sinônimo de afronta ao particular, tem de ser notório, direto e com lucros e bonécias para se envolverem em uma trama tão feroz que sai da boca com tanto arrepio e um simples e longínquo quase mudo bomdia apertado.
Os jovens agora técnicos e futuros mestres do saber ignoram a presença de ventos úmidos,
os jovens em presenças abissais com outros semelhantes se refugiam e se limitam a transmitir um único gemido, apesar de risos com a vida estática e inerte de fotos e vídeos.
Até as sombras que ocupavam as calçadas se desesperaram com tamanha frieza e se foram, só a calor e sol nas portas.
As sombras que amoleciam as pregas da cabeça se abstiveram de rezar mais um domingo e elas próprias se excomungaram.
Aquela que foi rua hoje não carrega mais nada de peladas das crianças nem de crianças nuas
agora é passagem para escritórios.

A vida se foi juntamente com as sombras o que resta a rua é calor e obviedade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Olhares

                                                                     Imagem: Mark Keller Apesar dos olhares temos que nos conter Olhares como portais de fome Olhares enquanto te desprezam Vivares em pensamentos cálidos Franzinos sem movimentos Olhares como a gota d’água que as cargas São pelos olhares que a tentação palpita o peito No desprezo, no sem saber ser vista(o) No chão do bar que via chuva Pendendo em socorrer-se na poça Desviar um carro na curva Olhares ferozes de culpa De passado Olhares de fuga De presente Quando se encontram se combinam Se diferem Se apreendem e se espantam Se esfregam e se idolatram Se rejeitam e se desprezam Olhares incertos como 2 e 2 são 5 As portas do eu que imagina penetrar Excitação de longe Sem toque Chamego distante do tamanho do mar

Dio, Come Te Amo

Amor mais forte que o vento ao mar que para o sol de brilhar faz do luar sua morada derrama sobre os corpos os abraços singelos de fazer descobrir um palmo quente de fissura no coração atira-me do prédio em chamas porque em mim emanas o desejo de sofrer porque sofro pelo teus lábios- olhos, face, calado o desejo em segredo dentre os amores atirados foste tu o mais oblíquo admirado jeito de morrer a doçura do seu cantar é um estalido, bramido como fera presa liberdade terei se tocasses em seu rosto- não haveria escravo mais feliz se tocando sua sinhá pudesse também beija-la porque de ti brotas o calor impossível e tão sensível de um afago litígio apenas seus olhos podem pronunciar: "Dio, Come te amo!"

Ao Poeta Maldito - N° 666

Na companhia de fantasmas  Que te aconselham ao mal Bafore nuvens de desgosto  Não espero nem desejo que se cure, poeta Pois as feridas abertas na América Latina  Transformam esse grande hospital da vida  Em um manicômio incurável  Por isso, encha as veias de veneno com uma seringa de pitu E trepe na Luz mórbida das estrelas como os gatos  E vire as latas em bêbadas noites  Charfurde o lixo como os porcos citadinos  Seja sempre esse enfermo  Sem fama alguma em hospital particular   Definhe, porque a carne podre que definha é a vida que a cada gole corroeu Ame, nunca a mesma. Não cometa mais esse erro Coma as pestilentas, as infames, As alcoólatras que dão porres pesados de poemas, papéis vomitados de ressacas, voltas pela cidade fumacenta, deixando os rastros imundos das feridas Não se cure, poeta Tu és um cão do Sul que veio se queimar nos trópicos  Sentir a pátria te bater e te cuspir na cara  Assim como as bucetas que te bat...
                                                                                                                                                           Cora              ...

Calíope

"Carne opulenta, majestosa, fina,  Do sol gerada nos febris carinhos,  Há músicas, há cânticos, há vinhos  Na tua estranha boca sulferina ." Crus e Sousa Engendra a substância de tua bela voz Lendo seu poema épico da batalha Donde os Titãs jogados à fornalha Do poder divino. Oh! Força algoz Ornada de grinalda comtempla a sós Do monte parnaso inspira-se e talha Na tabuleta com seu brunil não falha Em remanescer à poesia uma foz Jorrando a paixão do Deus Apolo Entre suas vestes dois filhos amaram Mas Eagro, talvez mais obtuso Deu-te ao ventre as notas de seu falo Um Orfeu aventurado cantaram À jovem Calíope seu ar majestoso