sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Aquela Rua

Aquela rua de curva acotovelada donde havia sombras para as duas calçadas, neste meu tempo não refugiam mais pessoas.
Os homens se enfurnaram em suas casas e de lá apenas saem as missas e trabalhos.
As crianças que doutros tempos saboreavam a delicia de um sol para empinar pipas, agora refrigeram-se em seus compartimentos de solidões e abestam-se tão de repente por inoculadas notícias atentadoras.
Ó, tu eras uma rua gigantesca com de dimensões de paixões, sobrados de conversas,
Bons dias, boas tardes. " Lá vem Jacó de sua pescaria"; "Alcebiades da casa de sua amante" e Tereza a estender as fragrâncias das vestes no varal.
Agora aquela rua de maestria clássica já não cabem mais pessoas, apenas passam carros em horas distintas.
Os humanos dali presentes agora se desconfiam, não se conhecem, não se mutuam, não entreolham-se.
Olhar ao vizinho é sinônimo de afronta ao particular, tem de ser notório, direto e com lucros e bonécias para se envolverem em uma trama tão feroz que sai da boca com tanto arrepio e um simples e longínquo quase mudo bomdia apertado.
Os jovens agora técnicos e futuros mestres do saber ignoram a presença de ventos úmidos,
os jovens em presenças abissais com outros semelhantes se refugiam e se limitam a transmitir um único gemido, apesar de risos com a vida estática e inerte de fotos e vídeos.
Até as sombras que ocupavam as calçadas se desesperaram com tamanha frieza e se foram, só a calor e sol nas portas.
As sombras que amoleciam as pregas da cabeça se abstiveram de rezar mais um domingo e elas próprias se excomungaram.
Aquela que foi rua hoje não carrega mais nada de peladas das crianças nem de crianças nuas
agora é passagem para escritórios.

A vida se foi juntamente com as sombras o que resta a rua é calor e obviedade.

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