terça-feira, 17 de julho de 2018

Sem verso nem prosa: poesia!


                                                                                                                                                       Imagem: Jack Vettriano


"Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso."
Rainer Maria Rilke


Quando estamos no colo um do outro me veem versos que não consigo reter. Palavras soltas como os fios de cabelo que tento segurar, mas eles gritam e berram e eu as esqueço como a dor da cabeça puxada.
Não consigo gravar a poesia que se fez na pose, no sorriso maluco na hora de não sorrir, na foda escondida, na cintura ciranda, pois enlouqueço.
Sonho com uma palavra poética no instante em que me pede: pare! E eu te calo e tudo esquecemos: de parar, do lugar, da hora, da razão, da memória e deixamos a negativa da exclamação: pare! nos possuir no momento em que estamos mais molhados, ejaculando, nos unindo por dentro e por fora em carne, viva! esfolada, fluida, quando nossas caras, bocas e tremedeira denuncia sem crime nem castigo, sem verso nem prosa: poesia! 

domingo, 15 de julho de 2018

A espera

                                                                                                                                   Imagem: Caspar David



"eu to com uma vontade danada 
de te entregar todos beijos que eu não te dei 
e eu to com uma saudade apertada 
de ir dormir bem cansado 
e de acordar do teu lado pra te dizer 
que eu te amo"
Rubel


Ouvindo músicas passadas
esperando parado nas ondas das notas
esperando nas horas fugidas
músicas tortas

fui rei, mendigo e astronauta
poeta, bêbado, lúdico
mas com você viro criança peralta
correndo lúbrico

suando pela natureza
que encontramos ao céu aberto
com violência, com beleza
te espero como o azul espera o dia
te espero como um feto
te espero como o poeta a sua poesia

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Saudade (2)



                                                                                                                                               Imagem: Jack Vettriano


"Se tu soubesses no que penso e no que tenho pensado! Enquanto
eu falo a minha alma desvaria, e a minha febre devaneia. Sonhei
sangue no peito dela, sangue nas minhas mãos, sangue nos meus
lábios, no céu, na terra... em tudo! "
Penseroso

Saudade é coisa que se sente e não se doma. A falta do acontecido e do não feito. Saudade é estrada de chão batido sem rosas no caminho, as laterais barrancosas e o quase deslize profundo. A carona na beira incerta. Os dois lados da moeda no cara ou coroa.
Espera de mar sem saber se amar. Desespero de vizinhos. Encontro de vizinhos tão distantes em peito, olho, prosa e verso.
Espera de 9 anos criançados cirandeiros para o reencontro de adultos maduros madrugueiros.
Saudade é toda a cachaça, a insônia e loucura que se bebeu, que se fodeu. Toda comida que queimou, todos os golpes que sofreu, os furtos de vida que rompeu. Roubar os sonhos alheios e perder os teus às alheias esperas. Até os sonhos dão saudade, não se perdem, pois estão no livro aberto do sono profundo, quando as noites sem dormir não nus arranca, como a plantas da estrada em que caminham os românticos.   

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Tendência ao mal




                                                                                                                                                              Imagem: Jack Vettriano

Depois de sonhar e ler uma carta


Ah! tendência infernal de ferir a ferro e fogo; como um punhal, luas e noites cheias de furor e frio.
Ah! tendência mortal de ser mortal e querer a morte em tudo na vida – horas, poros, povos...
Inferno é meu sobrenome soado ao ouvido, deprimido como um comprimido dissolvendo-se ebulíco.
Infernal maldito, amante, lúdico, infame, saudosista das pernoites.
E quem andar comigo em carinho irá adoecer, pois carregar um câncer externo pode ferir-vos, todas), por dentro. Um tumor que caminha e mente, faz o mal sem desculpas. Não só aloja-se ao lado enegrecendo o futuro, mas domina o peito e se parasita como uma pulga num cão, fazendo vos febrias, sofridas e amargas; loucas, sem rumo, sem colo e chão; sem acreditar mais no amor, sem sofrer pela dor, nas águas do fundo sem poço.

De Noite



Imagem: Jack Vettriano.

                 "Não há culpas quando se tem um coração de poeta" Juliano Beck.


No fundo do seu colo perdendo minhas lembranças e meu presente. Um criminoso espião em busca do perigo. Todas as portas abertas e o medo de um penetra enquanto penetro de lado seu escuro quarto. Penetro sua vida à noite sem cortinas e um lençol. Vizinhos acordados e nós dois molhados querendo acordar o mundo com as mãos. Mas acordamos apenas o sono que sentíamos, e conosco cometeu ainda mais um crime antes de dormirmos. Um crime perfeito, sim! Uma poesia de pernas abertas com tudo para ser incompleta, deu-se deitada na cama, sentada na trama, nos versos do avesso das pernas. Ejaculando alto como o filme que fazia sentido estar sem ser assistido. 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Encontros


                                                                                                        A todos os reencontros - dos cabelos e olhares.

Cometendo deslizes loucos nas alturas das nuvens. Beijos fortes e sedentos de desejos uns nos outros escalando a espera dos corpos nus e molhados de suor e fome, como um cão medroso babando por refúgio. Sentados debaixo de orgásticas madrugadas à espera. Vários anos depois duma só vez sentidos e calados, soltos, ouvidos, tocados. O medo que se fez na carne e penetrar em você agora é o frio na barriga mais gostoso. Sentindo o calor interno e o coração batendo no meu coração. Suas costas lavadas e gratas do corpo que te pesa tesão em cima. Sua profana, cara! safada, olhos abertos, semifechando, fechados, transmite na mordida da boca o abafo do grito que quer soltar (mas não pode). O tempo é pouco até termos que nos esconder e fingir como a poesia que resvala dos nossos olhares o que os pensamentos insanos querem perpetrar novamente e se apertam, se reprimem, se prendem um na imagem do outro, mas não se comem, se contém, se consomem.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Palavra

Palavra por palavra ia-se compondo num caderno:
Bons sons pinturas casacos laços
Enchia-se na imensidão do nada
Preenchia esse vazio um poeta
Eram tudo coisa
Coisas recicladas do poeta
Com coisas se inventa
O estado das palavras sem conexões apenas inerte
Da ao poeta poder de criar
Uma lata antes de tudo é uma lata, antes de ser poluição capitalismo perigoso
O poeta detecta as mentiras para não repeti-las em declamações
A palavra comprova a mentira

Sacramento de poesia