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Ao Poeta Maldito - N° 666


Na companhia de fantasmas 
Que te aconselham ao mal
Bafore nuvens de desgosto 
Não espero nem desejo que se cure, poeta
Pois as feridas abertas na América Latina 
Transformam esse grande hospital da vida 
Em um manicômio incurável 
Por isso, encha as veias de veneno com uma seringa de pitu
E trepe na Luz mórbida das estrelas como os gatos 
E vire as latas em bêbadas noites 
Charfurde o lixo como os porcos citadinos 

Seja sempre esse enfermo 
Sem fama alguma em hospital particular
 
Definhe, porque a carne podre que definha é a vida que a cada gole corroeu
Ame, nunca a mesma. Não cometa mais esse erro
Coma as pestilentas, as infames,
As alcoólatras que dão porres pesados de poemas, papéis vomitados de ressacas, voltas pela cidade fumacenta, deixando os rastros imundos das feridas

Não se cure, poeta
Tu és um cão do Sul que veio se queimar nos trópicos 
Sentir a pátria te bater e te cuspir na cara 
Assim como as bucetas que te bateram e cuspiram 

Fume o ópio e cheire o incenso 
Medite no obscuro do inferno como mergulhas à noite após o bar 
E saia para as casas noturnas 
E veja os corpos dançando, cheirando cocaína e trepando no hall sem fama das calçadas esburacadas 

Renasça, poeta, não se cure!
Procure sempre a matéria viscosa e nojenta da poesia mais fetida do seu ser

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