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Estradas noturnas te dão o blues



Estradas noturnas te dão blues


Sabe aquelas casas que ficam sozinhas nas estradas? Algumas com as luzes acesas? Há algo de blues nelas. Pensei nisso e também em como não temos um estilo musical somente triste. Temos os que falam de amor, mas nunca de toda a filosofia da vida simples e sofrida

Aquelas casas nas beiras de estradas são tão solitárias que passamos e as vezes nem as percebemos. As luzes acesas quando a noite cai são contrastes com a penumbra do caminho que parece um buraco sem fim, um túnel que passa o tempo enquanto não amanhece. 

Pelas janelas dos ônibus se veem esses casebres por que uma luz pequena os cobre como um vestido de boneca. Lá estão cadeiras velhas na varanda, as portas às vezes fechadas, um cachorro deitado sem se incomodar com o barulho daquele monte de ferro motorizado. 

As casas solitárias tem um ar de blues. Exalam solidão e até mesmo tempos difíceis, quando de tão velhas; além de suas cadeiras, estão em estado de caducidade, os cachorros magros e cabisbaixos, um chão batido de areia infértil. 

Às vezes encontro gente nas varandas, sentadas, fumando pacaio. Famílias, crianças, gatos, plantas, todos quietos. Contemplam as poucas árvores que se vê no terreiro ou simplesmente conversam sobre o passado de cirandas e forrós, as notícias do rádio sobre a vida estranha da cidade grande com toda aquela gente, ou mesmo estão apenas quietos, vai saber. 

Não são lugares tristes, pelo contrário, acredito que são os melhores locais da viagem. Quando passo pelas cidades e sou recebido pelas placas de “bem – vindo”, fico imaginando que preferia estar naquelas casas meio sem município. Largadas ali, naqueles cantos. O vento que sopra. A chuva que cai. Apenas o prazer de deixar uma luzinha e eu estando naquelas varandas. Seria meu cartão postal, meu ponto turístico, o rumo da minha desviagem sem negócios ou compromissos.

Quando o mato corre fico ansioso esperando uma daquelas casas. Tudo bem que a natureza é bonita, mas as casinhas  são grandes monumentos, patrimônios históricos, cheios de vida calma e serena.

Elas são mais bonitas à noite. Mas pela manhã sua beleza solitária também reluz. Dessa vez da para ver os poços artesianos, às lagoas ao redor e até os animais que estavam resguardado pelo sono como as galinhas e carneiros. O pasto verde e as folhas que dançam com o vento.

A imagem das igrejas que conservam a velhice autêntica das lendas. Os galhos que sobem pelas brechas dos telhados em ruínas, parecem sacralizar aquele espaço despovoado de mentiras e ilusões. As igrejas ficam mais belas sem gente, abandonadas por deus no meio do fim do mundo.

Mas a noite é mais bela, é mais blues. A imagem de uma casa, pequena, que toca o céu estrelado é como se ouvisse Robert Jhonson na encruzilhada soando para o diabo a sua música perdida.

Créditos da foto: Brasilian desert sertão 

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